Por Gabriela Tizian, médica veterinária dermatologista · CRMV-RS 11517

A ração pode, sim, causar coceira no cachorro. Mas só 3 a 5% dos cachorros que se coçam têm alergia exclusivamente ao que comem. A maioria tem dermatite atópica, e às vezes com a alimentação envolvida junto. Pra saber se a comida pesa no caso do seu cachorro, o caminho é a dieta de restrição, feita direitinho por 8 semanas. E trocar de ração, sozinho, não resolve dermatite atópica.

Ração pode causar alergia em cachorro?

Pode. Mas alergia alimentar e dermatite atópica são coisas diferentes, e a confusão começa aí.

Alergia alimentar é quando o cachorro tem coceira por causa do que come. Só 3 a 5% dos cachorros que se coçam são exclusivamente alérgicos alimentares. Nesses casos, você tira da dieta o que causa a coceira e não precisa fazer mais nada.

Dermatite atópica é a doença que causa coceira na maioria dos cachorros. É genética, crônica e não tem cura, tem controle. Aparece muito em cachorros que vivem dentro de casa, e em raças como Golden, Labrador, Shih Tzu, Lhasa e Bulldog Francês.

O que confunde é que os sintomas são os mesmos: coceira intensa, lambedura de pata, otite (infecção no ouvido), coceira em volta da boca e dos olhos. Por isso existe tanta dúvida sobre alimentação de cachorro alérgico.

Dermatite atópica induzida pelo alimento

Tem ainda um terceiro caso: o cachorro com dermatite atópica que também tem a alimentação envolvida. A comida causa coceira nele, mas não é a única causa. Isso se chama dermatite atópica induzida pelo alimento, e acontece em 30% dos cachorros com dermatite atópica.

Aqui, só mexer na comida não basta. Ele continua tendo os três defeitos na pele que todo cachorro atópico tem. Eu explico esses defeitos com a analogia da casa neste artigo sobre como tratar a dermatite atópica.

Como descobrir se a comida causa coceira: a dieta de restrição

Seja alergia alimentar ou dermatite atópica induzida pelo alimento, o que precisa ser feito é descobrir qual componente da alimentação faz o organismo do cachorro reagir.

Pra isso existe a dieta de restrição: a gente tira da alimentação os ingredientes que mais costumam causar alergia e mantém por um período de 8 semanas. Antes disso, não dá pra avaliar se a alimentação está interferindo ou não na coceira. Com 6 a 8 semanas já dá pra ter uma ideia.

Não é um dia, dois, três. É um período longo.

Ração hipoalergênica ou alimentação natural?

Dá pra fazer a dieta de restrição dos dois jeitos.

Ração hipoalergênica. São rações feitas com fontes de proteína especiais, processadas de um jeito diferente. E uma curiosidade: pra fabricar ração hipoalergênica, a fábrica precisa parar a produção das outras linhas e lavar todos os tanques onde as rações são feitas e armazenadas. Depois, lava tudo de novo pra voltar à linha normal. Não pode sobrar nenhum resto de outra proteína. É por isso que essas rações são mais caras.

Dieta caseira (alimentação natural). Aqui o cachorro come uma proteína exclusiva, que ele nunca tenha comido antes. Às vezes é mais difícil: tem cachorro que precisa comer carne de rã, carne de pato.

E na dieta caseira vale o mesmo cuidado da fábrica: a contaminação cruzada. Se você cortou frango ou outra carne com a mesma faca e na mesma tábua, precisa higienizar antes de preparar a comida dele. Pensa nas pessoas que têm alergia a amendoim: um restinho de pasta de amendoim já causa reação.

Frango e carne bovina: os que mais causam coceira

As fontes de proteína que mais causam coceira nos cachorros são frango e carne bovina. E elas estão na maioria das dietas.

E não é só a carne. Tem que lembrar dos derivados, como o ovo e a moela, que costumam aparecer em quem faz alimentação natural.

Eu tive um paciente com coceira muito alta que fez dieta caseira. Quando completou o período, a tutora voltou a dar carne bovina pra ele. No mesmo dia, ele começou a se coçar. Foi assim que a gente descobriu: ele era alérgico a frango e a carne bovina.

Os erros que estragam a dieta de restrição

Talvez você já tenha feito a dieta e achou que não deu certo. Às vezes deu errado por um detalhe:

Eu lembro de um paciente que tomava todo dia um produto pra articulação. Na composição tinha frango. Ele era alérgico a frango, e a gente não conseguia estabilizar a coceira dele até descobrir isso.

Por isso, sempre que o seu cachorro for no veterinário por qualquer outro motivo, avisa: “ele é alérgico”.

A dieta resolve sozinha?

Não. Outro erro que eu vejo muito: a tutora acha que, só por dar dieta hipoalergênica, a coceira deveria estar controlada.

Se o cachorro tem dermatite atópica induzida pelo alimento, a dieta sozinha não vai fazer efeito. Ele continua com os três defeitos na pele, e o que causa coceira continua entrando. Precisa fazer a Fase do Construtor junto. É o mesmo motivo pelo qual a alergia na pele melhora e volta.

E se a dieta não mudou nada, pode comer qualquer coisa?

Também não. Se você fez a dieta de restrição direitinho e a coceira continuou igual, a comida não é a causa. Mas o cachorro atópico ainda se beneficia de uma alimentação especial, comercial ou caseira.

Aí a ideia é uma alimentação balanceada, com efeito anti-inflamatório, que ajude a pele a se regenerar, a não desidratar, a se proteger, e que faça o organismo não reagir de forma tão exagerada aos alérgenos (as coisas que causam alergia).

Só que tem uma diferença grande entre uma dieta hipoalergênica (aquela da fábrica que para tudo e lava os tanques) e uma dieta para peles sensíveis. Não são a mesma coisa.

O que fazer agora

  1. Se você já trocou a ração e nada mudou, pensa: foi dieta de restrição de verdade, por 8 semanas, sem nenhum extra?
  2. Confere os remédios e suplementos que ele toma. Algum tem sabor de frango?
  3. Lembra que, se ele é atópico, a comida é só uma parte. A pele precisa da Fase do Construtor.

Se o seu cachorro se coça e você ainda não sabe o motivo, começa pelo Diagnóstico da Coceira.

Se ele tem dermatite atópica e você quer saber qual é a melhor alimentação pra ele, como fazer a dieta de restrição e a diferença entre hipoalergênica e peles sensíveis, isso é o que eu ensino no Método ConstruCÃO. Não é mais um tratamento. É um método de controle.

Tô te esperando lá dentro.

Gabriela Tizian, médica veterinária dermatologista (CRMV-RS 11517)

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