Por Gabriela Tizian, médica veterinária dermatologista · CRMV-RS 11517

Se você já tentou ração, banho, remédio, antipulgas, mudou a rotina do seu cachorro e a coceira não melhora, não é porque você não se esforça. Na maioria das vezes, também não é porque o remédio, o shampoo ou a ração não funcionam. É porque as condutas estão sendo feitas fora da ordem, sem ler a pele do cachorro. E a dermatite atópica não é uma linha reta: ela é uma curva, que sobe e desce.

“Eu já fiz de tudo e ele não melhora”

Quem tem cachorro com coceira certamente já disse isso. “Fui no veterinário quatro, cinco vezes e ele não melhora.” A dermatite atópica não tem cura, tem controle, e isso você provavelmente já sabe.

Mas a coceira não fica sem melhorar porque nada funciona, nem porque o remédio “ficou resistente”. Ela não melhora porque a pele tem uma leitura. Quando você aprende a ler a pele do seu cachorro, você acerta as condutas. São três motivos principais.

Motivo 1: não ler a pele do cachorro

Ler a pele começa por medir a coceira. Dá uma nota de 0 a 10:

Conforme a nota, a conduta muda:

Uma conduta é pra fazer parar de coçar. A outra, com produtos diferentes, é pra manter. Eu explico a nota em detalhe neste artigo sobre a régua da coceira, e as fases neste artigo sobre as 3 fases do tratamento.

Motivo 2: achar que a dermatite é uma linha reta

A dermatite atópica não é uma linha reta. É uma curva. Às vezes a coceira está acima de 5, às vezes abaixo. E as condutas precisam acompanhar.

Pensa numa pessoa com ansiedade generalizada. Na crise, com o coração acelerado, suando, quase em pânico, ela toma um remédio pra sair da crise. Seria, entre aspas, a “Fase da Faxina” da ansiedade. Fora da crise, no dia a dia, a conduta é outra: um remédio pra manter a ansiedade controlada.

Isso quer dizer que ela nunca mais vai ter crise de ansiedade? Não. Vai e volta. Com o cachorro é igual: a crise alérgica vai e volta, porque não tem cura.

Quando você troca a conduta logo que a coceira começa a subir, a crise fica menos intensa e o cachorro precisa de menos corticoide, que a longo prazo reduz a qualidade e a expectativa de vida dele. Muitas vezes, também não precisa de remédio contínuo, como Apoquel, Cytopoint ou Zenrelia.

Eu vejo isso com a minha própria cachorra. Quando a coceira dela começa a subir, logo no começo, eu troco a conduta, e a coceira volta a baixar. Por isso ela está há muito tempo sem corticoide.

Mas atenção: se alguém te prometer que o seu cachorro nunca mais vai usar corticoide, corre, porque é mentira. Numa doença crônica e inflamatória, não tem como prometer isso. O que dá é reduzir ao máximo.

Motivo 3: medir a melhora do jeito errado

Quando a coceira começa a voltar, muita gente percebe que ela está aumentando, aumentando, aumentando, e só leva no veterinário quando já está numa crise muito intensa. Aí vem a frustração: “o veterinário era bom, mas agora não acerta mais”, “o remédio parou de fazer efeito”.

Por isso é preciso alinhar expectativa e realidade:

Sem esse alinhamento, a gente se frustra, pula de veterinário em veterinário e dá remédio sem necessidade. E o tutor sofre junto: é muito dinheiro, os produtos são caros, e parece que nada resolve.

Resumindo: por que a coceira não melhora

  1. Não ler a pele: não medir a nota e não saber que existem fases e condutas diferentes.
  2. Achar que a dermatite é uma linha reta, quando ela é uma curva que vai e volta.
  3. Não alinhar expectativa e realidade.

Se você ainda não sabe se a coceira do seu cachorro é dermatite atópica, eu explico as possibilidades neste artigo sobre o que pode ser a coceira do cachorro.

O que fazer agora

  1. Dá uma nota de 0 a 10 pra coceira do seu cachorro hoje.
  2. Confere se o que você está fazendo combina com a nota: Faxina ou Construtor.
  3. Ajusta a expectativa: o objetivo é a coceira controlada, não zerada.

Se o seu cachorro se coça e você ainda não sabe o motivo, começa pelo Diagnóstico da Coceira.

Se ele já tem dermatite atópica e você quer aprender a ler a pele dele e acertar as condutas em cada fase, isso é o que eu ensino no Método ConstruCÃO, um acompanhamento de um ano. Não é mais um tratamento. É um método de controle.

Tô te esperando lá dentro.

Gabriela Tizian, médica veterinária dermatologista (CRMV-RS 11517)

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