Por Gabriela Tizian, médica veterinária dermatologista · CRMV-RS 11517
Se a crise de coceira do seu cachorro volta todo mês, o mais provável é que a manutenção esteja parando quando ele melhora. É o erro mais comum no controle da dermatite atópica: tratar a crise, ver o cachorro bem e parar tudo. Como a doença não tem cura, se para tudo, ela volta. O que segura o cachorro bem por mais tempo é a Fase do Construtor.
Por que a crise de coceira volta todo mês?
Na live, perguntei pras tutoras se, quando o cachorro está bem, elas continuam tratando ou param com tudo. A maioria para. E quando perguntei de quanto em quanto tempo a coceira volta, as respostas foram “todo mês”, “dura um mês”, “parece que vem mais forte”.
É normal parar quando está tudo bem. Mas é justamente esse o maior erro no controle da dermatite atópica: não fazer a fase de manutenção e esperar a próxima crise chegar.
E o maior segredo do controle também é esse: a Fase do Construtor. É com ela que o cachorro fica estabilizado, que se evitam novas crises e que as crises ficam mais espaçadas entre uma e outra.
Dois momentos, duas condutas
A dermatite atópica tem dois momentos, e cada um pede uma coisa. Quem diz em qual o seu cachorro está é a régua da coceira:
- Crise alérgica (nota de coceira de 5 pra cima): é a Fase da Faxina. O objetivo é fazer o cachorro parar de se coçar o mais rápido possível e baixar a nota. O que fazer nesse momento, eu explico neste artigo sobre cachorro se coçando muito.
- Manutenção (nota de 4 pra baixo): é a Fase do Construtor. As condutas mudam: agora é manter a coceira baixa.
O ponto onde quase todo mundo erra é o segundo. Quando está tudo bem, não mantém tudo bem. E aí a coceira logo volta, o corticoide volta, as idas ao veterinário voltam.
É igual diabetes
Pensa numa pessoa com diabetes. Ela normalmente precisa de insulina pra baixar a glicemia, que é o açúcar no sangue. Isso seria a Fase da Faxina.
Mas, mesmo com a glicemia controlada, pra ela não precisar de mais insulina e não ter os sintomas, ela precisa de outras condutas: atividade física, reeducação alimentar. Ela não fica só na insulina.
A dermatite atópica também é uma doença crônica. O cachorro não fica só no que tira ele da crise. Quando ele está bem, entram outras condutas, totalmente diferentes, pra manter.
E vale pra qualquer doença crônica: quem tem colesterol alto precisa saber que alimentos aumentam o colesterol; quem tem problema no coração precisa saber que exercício pode fazer. Com o cachorro alérgico, quem precisa saber é a tutora, porque o cachorro não sabe ler, não sabe estudar, não sabe escolher o shampoo dele.
Por que tantos tutores chegam dizendo “você é minha última esperança”
No começo, quando eu comecei a trabalhar só com cachorros alérgicos, eu atendia como volante: não tinha clínica própria, ia até a clínica de colegas pra atender os pacientes com problema de pele.
E todos chegavam com a mesma frase: “você é minha última esperança”, “eu não sei mais o que fazer”, “eu não aguento mais esse cachorro se coçando”. Os tutores vinham com um desgaste emocional enorme.
Como eu sou muito curiosa, fui reparar de onde vinha tanto desespero. E comecei a ver padrões de erro que a maioria cometia:
- Parar o tratamento quando estava tudo bem.
- Não trocar o shampoo quando era preciso. Quando eu perguntava qual shampoo já tinham usado, a resposta era “todos”. E sempre vinha o “funcionou por um tempo, depois não funcionou mais”. Eu explico a escolha neste artigo sobre o melhor shampoo para cachorro com coceira.
- Trocar a alimentação sem saber por quê. Pra alimentação natural ou pra ração hipoalergênica, sem saber o que esperar ou sem fazer a dieta do jeito certo. Falo disso neste artigo sobre ração para cachorro com dermatite.
- Usar remédio contínuo sozinho. Apoquel ou Cytopoint como única coisa. Ou “o Apoquel funcionou um tempo, agora vou pro Cytopoint porque é mais forte”. Não é assim que se escolhe o remédio. Eu explico a diferença neste artigo sobre Cytopoint ou Apoquel.
Analisando tudo isso, eu entendi o que estava por trás. Saber que o cachorro tem dermatite atópica não é o mesmo que saber lidar com ela. E se eu não mudasse isso, eu ia ser só mais uma veterinária: na próxima crise, o tutor ia procurar outro colega dizendo exatamente a mesma frase. Eu conto essa história neste vídeo:
O primeiro erro: não conhecer a doença do seu cachorro
Parar tudo quando o cachorro melhora é um erro grande. Mas, pra mim, o primeiro erro vem antes: não conhecer a doença do seu cachorro.
A tutora recebe o diagnóstico de dermatite atópica, sabe que o cachorro se coça, sabe que não tem cura, e fica só nisso. Tudo meio vago. Só que, como é uma doença sem cura, você precisa entender o que acontece com o seu cachorro, por que acontece, o que fazer e quando fazer. Senão você fica refém do corticoide, de consulta atrás de consulta, de remédio contínuo e de crises uma atrás da outra.
Quando eu atendia presencialmente, isso ficou claro logo no começo. Na primeira consulta, eu não dava só o diagnóstico: eu explicava pro tutor a doença que o cachorro dele tinha. Assim, quando a crise voltasse, ele não ia achar que o tratamento não deu certo. Ia saber o que estava acontecendo. Eu falo desses erros neste vídeo:
A Fase do Construtor evita todas as crises?
Não. E se alguém te prometer isso, está mentindo. A dermatite atópica não tem cura, então o cachorro vai, sim, ter crise de vez em quando.
A diferença é o intervalo. Tem uma diferença muito grande entre um cachorro que entra em crise uma vez por mês e um cachorro que entra em crise a cada 3, 4 meses. Um cachorro que faz a manutenção direitinho às vezes fica 3, 4, 5 meses sem crise. O objetivo é o menor número de crises possível no ano.
O shampoo muda de uma fase pra outra
O shampoo da Fase da Faxina é diferente do da Fase do Construtor. Um é pra baixar a coceira, o outro é pra manter a coceira controlada. É como na farmácia: tem shampoo pra cabelo oleoso, com frizz, loiro, cacheado. Os shampoos medicamentosos pro cachorro alérgico também são diferentes entre si.
Na live, fui lendo os rótulos dos shampoos que as tutoras usavam. É fácil diferenciar pelo que está escrito:
- “Antisséptico”, “antimicrobiano”, “antifúngico” → shampoo de Faxina, que limpa a pele.
- “Hidratante”, “recompõe a barreira cutânea”, “ácidos graxos”, “ceramidas” → shampoo de Construtor, que mantém a pele o mais perto possível do normal.
O certo é ter os dois em casa. Coceira de 5 pra cima, shampoo de Faxina. De 4 pra baixo, shampoo de Construtor. Como escolher cada um, eu explico neste artigo sobre o melhor shampoo para cachorro com coceira.
E a frequência do banho?
Também importa. Esses shampoos são medicamentosos, estão fazendo alguma coisa na pele. E nenhum produto que vai direto na pele dura mais que uma semana, sete dias, dez dias. Por isso a frequência de banho no cachorro com dermatite atópica costuma ser maior.
Pra descobrir a frequência certa do seu cachorro, eu criei o diário do cachorro que se coça. Mostro como fazer neste artigo sobre como tratar a dermatite atópica.
Uma tutora contou que dava banho a cada 15 dias e que a coceira começava logo depois dos banhos. Quando a coceira aumenta depois do banho, provavelmente o shampoo é o errado pra aquela fase.
Pelo curto ou pelo longo? E a escovação?
Duas dúvidas que apareceram na live:
- Pelo curto ou longo: pro controle da dermatite atópica, o tamanho do pelo pouco importa. Ele interfere na quantidade de shampoo e de creme que você usa e no trabalho do banho (mais tempo secando, mais tempo penteando), mas não na doença.
- Escovação: depende da raça. Tem cachorro que precisa, tem cachorro que não. Ela interfere na estética, não na dermatite atópica.
O que fazer agora
- Pensa: de quanto em quanto tempo a crise do seu cachorro volta?
- Quando ele melhora, o que você faz? Se a resposta é “paro tudo”, está aí o ponto.
- Confere se você tem em casa os dois shampoos, o de Faxina e o de Construtor.
Se você quer o passo a passo da manutenção, com a régua da coceira, o diário e o shampoo de cada fase, isso é o Método ConstruCÃO: um acompanhamento de um ano, justamente porque a dermatite atópica não tem cura e uma consulta só não dá conta. Não é mais um tratamento. É um método de controle, pra você não ficar refém de corticoide nem de consulta atrás de consulta.
Tô te esperando lá dentro.
Gabriela Tizian, médica veterinária dermatologista (CRMV-RS 11517)
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